sábado, 9 de dezembro de 2017

Bahá’u’lláh e a Revolução Russa

Por Baron Harper.


Há um século atrás, Vladimir Lenine levou o partido bolchevique - que ele tinha fundado - a derrubar o governo provisório de Alexander Kerensky.

A revolução que Lenine preparou arduamente durante anos teria amplas consequências nas décadas que se seguiram a 1917. Sendo reconhecidamente ateu, Lenine aderiu ao movimento revolucionário na Rússia czarista. Mais tarde, o seu fervor revolucionário intensificou-se quando o seu amado irmão mais velho foi enforcado por conspirar para assassinar Czar Alexandre III.

Vladimir Lenine
Lenine era um leitor ávido de literatura política revolucionária - incluindo “O Capital” de Karl Marx - e tornou-se marxista em 1889. Quando tentava unificar os grupos marxistas russos, esforçou-se por minar a veneração dos trabalhadores pelo Czar e afirmou que o capitalismo estava a destruir rapidamente a comuna agrícola - uma comunidade autónoma de famílias camponesas. Lenine acreditava que o proletariado - o povo da classe trabalhadora - nunca poderia entender que, ao derrubar capitalismo, só seria possível construir o socialismo marxista com um núcleo duro de revolucionários que governasse esse movimento.

Lenine nasceu durante o reinado do Czar Alexandre II, que reinou entre 1865-1881 e que foi saudado como o "Czar libertador" por ter libertado os camponeses servos. Na Rússia, a servidão era um estado de sujeição que vinha desde a Idade Média, em que as pessoas eram obrigadas a prestar serviços a um senhor e à sua terra.

Conhecido pelas opiniões liberais, Alexandre II foi um dos oito soberanos a quem Bahá’u’lláh Se dirigiu nas Suas singulares Epístolas aos reis e governantes na década de 1860. Para Alexandre II e os governantes que, no século XIX, exerciam autoridade absoluta civil e eclesiástica, escreveu:
Harmonizai as vossas diferenças e reduzi os vossos armamentos, para que o fardo das vossas despesas possa ser aliviado e para que as vossas mentes e corações possam ficar tranquilos. Sarai as dissensões que vos dividem… Ficámos a saber que aumentais as vossas despesas todos os anos e que colocais o respectivo fardo sobre os vossos súbditos. Em verdade, isto é mais do que eles podem suportar e é uma penosa injustiça. (SEB, CXVIII)
Especificamente para o Czar Alexandre II, Bahá’u’lláh declarou:
Em verdade, ouvimos aquilo que suplicastes ao teu Senhor, quando comungavas em segredo com Ele. Por isso, a briza da Minha benevolência soprou, e o mar da Minha misericórdia agitou-se, e respondemos-te em verdade. O teu Senhor, verdadeiramente, é o Omnisciente, o Sapientíssimo. (The Summons of the Lord of Hosts, p. 83)
Bahá’u’lláh disse aos governantes mais poderosos do mundo que os seus reinos terminariam se eles não prestassem atenção aos Seus avisos. Dirigindo-se ao Czar Nicolau II, escreveu:
Ó orgulhosos da terra! Acreditais que viveis em palácios enquanto Aquele Que é o Rei da Revelação reside na mais desolada das moradas? Não, por Minha vida! É em túmulos que habitais, se apenas o percebêsseis! (Idem, p. 87)
As políticas liberais do Czar tiveram a oposição dos nobres que perdiam posição e influência. Posteriormente, Alexandre II aceitou as suas pressões e iniciou uma política reaccionária que provocou uma desilusão generalizada, niilismo, agitação e terrorismo no seu império - e o que levou ao seu assassinato em 1881.

O seu filho, Alexandre III, que reinou de 1881-1894, prosseguiu uma política de repressão severa e hostilidade desafiadora para as vozes inovadoras e progressistas que apelavam para mudanças sociais. Ele acreditava que a ortodoxia, a autocracia e a nacionalismo russos salvariam a Rússia da agitação revolucionária. Invertendo algumas das reformas liberais do seu pai, decretou que o seu autoritarismo não teria limites.

Alexandre III morreu de nefrite aos 49 anos, em 1894. Quando o seu sucessor, Nicolau II, que reinou entre 1894-1917, se viu imperador da Rússia, perguntou ao seu primo: "O que vai acontecer comigo e com toda a Rússia?"

O Czar Nicolau II
Destinado a ser o último dos Romanov, que governavam desde 1613, Nicolau, com 26 anos, casou apressadamente com a princesa Alice (Alexandra), tornando-se ela a única pessoa em que podia confiar. Como Czar, Nicolau decidiu governar segundo o modelo do seu falecido pai. A sua política resoluta de repressão e absolutismo contribuiria para o declínio do Império Russo, acabando com a sua hegemonia e deixando de ser uma das grandes potências do mundo.

Debilitado por uma burocracia corrupta, humilhado numa guerra com o pequeno Japão em 1905, culpado pelo massacre do “Domingo Sangrento” (1389 pessoas) no mesmo ano, e arruinado pela morte de mais de 3.300.000 russos que ele quis liderar na Grande Guerra, Nicolau foi forçado a abdicar no início de 1917 - há um século. Ele e a sua amada consorte, juntamente com os seus cinco filhos, foram mantidos em prisão rigorosa pelo governo provisório de Kerensky até que surgisse a oportunidade de os exilar no estrangeiro. Em vez disso, os bolcheviques liderados por Lenine tomaram o poder em Outubro de 1917, e passado um ano executaram o czar e a sua família.

Ao acusar a conspiração leninista pela destruição brutal do primeiro governo democrático estabelecido na Rússia, a Casa Universal de Justiça condenou a revolução russa dos bolcheviques:
Durante longos anos, o sistema soviético criado por Vladimir Lenine conseguiu apresentar-se a muitos como um benfeitor da humanidade e o defensor da justiça social. À luz dos acontecimentos históricos, essas pretensões eram grotescas. A documentação agora disponível fornece provas irrefutáveis de crimes tão enormes e loucuras tão abismais que não tem paralelo nos seis mil anos de história registada. A um grau nunca antes imaginado, e nem sequer tentado, a conspiração leninista contra a natureza humana também procurou sistematicamente extinguir a fé em Deus... O seu efeito espiritual a longo prazo, tragicamente, era perverter, para o serviço da sua própria agenda amoral, os anseios legítimos de liberdade e justiça dos povos oprimidos em todo o mundo. (Century of Light, pp. 61-62)
Um século após a revolução russa, a crescente agitação entre populações civis em todo o mundo foi incapaz de criar um sistema justo e equitativo de governação internacional. Apesar de se apresentarem reivindicações, de se comprometerem lealdades, de se travarem batalhas, de se reformularem tratados e de se derrubarem governos, a verdade é que, em todo o mundo, os povos ainda se sentem desconfiados, em conflito e sem liderança. E podemos reflectir sobre uma das mais duras lições da Revolução Russa: que os bolcheviques substituíram uma autocracia indiferente por uma ditadura brutal, que se tornou responsável por engendrar atrocidades muito piores do que alguma vez se poderia ter imaginado sob domínio dos czares. Essa lição recorda-nos que as lutas tradicionais pela mudança podem piorar em vez de melhorar as condições - mas, ainda mais importante, lembra-nos que nenhum governante, por mais poderoso que seja, pode ignorar as advertências de um profeta de Deus. Bahá’u’lláh deu à humanidade um caminho para uma mudança positiva quando apelou aos governantes do mundo que estabelecessem a unidade através da justiça: "O propósito da justiça é o aparecimento da unidade entre os homens". (Tablets of Baha’u’llah, p. 66)

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Texto original: Baha’u’llah and the Revolution in Russia (www.bahaiteachings.org)

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Barron Harper é um consultor fiscal internacional. Aceitou a Fé Bahá’í em 1967, serviu em instituições Bahá’ís locais e nacionais nos Estados Unidos, Argentina e Portugal, e é autor de dois livros Bahá’ís - “Lights of Fortitude” (George Ronald Press) e “Unfurling the Divine Standard".

sábado, 2 de dezembro de 2017

As zonas cinzentas de Deus

Por David Langness.


A investigação científica diz-nos que tudo tem graus e intensidades - que todas as coisas são relativas.

Podemos resumir esta perspectiva científica do mundo com uma frase: não existe preto ou branco; apenas tons de cinzento. A frase reflecte a perspectiva de que não existe uma verdade ou um erro absoluto no nosso mundo moralmente imperfeito - que não existem absolutos morais.

Ibn Sina (Avicena)
No debate sobre a existência de Deus, esta questão sobre a relatividade moral tornou-se o centro das atenções nos últimos mil anos ou mais.

Na verdade, começou muito mais cedo do que isso, com Aristóteles e o seu livro Metafísica, por volta do ano 300 AC. A perspectiva de Aristóteles sobre Deus e o mundo teve um enorme impacto em toda a filosofia ocidental e nos primeiros grandes pensadores islâmicos como Al-Kindi, Al-Farabi, Ibn Sina (Avicena) e Ibn Rushd (Averroes), através da escola do pensamento islâmico Falsafa (filosofia). Esses grandes pensadores, por seu lado, influenciaram São Tomás de Aquino e o seu famoso ensaio intitulado "As Cinco Vias", assim como o seu livro Summa Theologica, publicado no século XIII, e que ainda hoje causa discussão.

S. Tomás de Aquino acreditava que a fé só por si não era suficiente - os seres humanos precisavam de usar a razão para entender a verdade sobre Deus. No seu ensaio “As Cinco Vias” (Quinque Viae) da Summa Theologica, ele indica essas razões:

  • Movimento; e a noção de um Primeiro Movimentador.
  • Causa; e a noção de uma Primeira Causa.
  • A existência do necessário e desnecessário.
  • Gradação; ou a noção dos tons de cinzento.
  • Ordem na natureza; ou toda a natureza é governada por Deus para um fim.

Aqui está uma citação directa do argumento da Quarta Via de Aquino:
Pois encontramos maiores e menores graus de bondade, verdade, nobreza e outros. Mas "mais" ou "menos" são termos que expressam várias coisas que conduzem de diversas maneiras em direcção a algo que é o "maior", tal como no caso de "mais quente" que se aproxima do "maior" calor. Existe, portanto, algo "mais verdadeiro" e "melhor" e "mais nobre", o que, em consequência, é o maior "ser". Para essas coisas que são as maiores verdades existem os maiores seres... Além disso, aquilo que é o maior no seu modo, é, de outra forma, a causa de todas as coisas que lhe pertencem; assim, o fogo, que é o maior calor, é a causa de todo o calor, como é dito no mesmo livro. Portanto, há algo que é a causa da existência de todas as coisas, e da bondade, e de qualquer perfeição. A isso nós chamamos "Deus".
S. Tomás de Aquino
Por outras palavras - se posso tomar a liberdade de simplificar e resumir esse argumento subtil e sério - S. Tomás diz que os tons de cinzento só são possíveis devido à existência de preto e branco. Ou, dizendo de outra maneira, podemos deduzir a existência de Deus a partir da existência do bem moral humano.

Isto significa que um universo moral, segundo S. Tomás no seu primeiro princípio, só pode ter origem a partir de Primeiro Movimentador ou Movimentador Primordial; um ser que põe em movimento todo o conceito de moralidade. Aquilo que Aristóteles designou como movimentador inamovível, esse conceito de Deus como o principal motor do universo influenciou teologia e filosofia durante milhares de anos. Cientificamente, isso combina bem com a recentemente descoberta lei da conservação da energia, o princípio da física que afirma que a energia total de um sistema não pode variar.

Bahá’u’lláh refere-Se a este conceito desta forma:
Glorificado, imensamente glorificado sois Vós. Sois Aquele que desde a eternidade tem sido o Rei de toda a criação e o seu Primeiro Movimentador, e permanecereis até à eternidade o Senhor de todas as coisas criadas e o seu Ordenante. (Baha’i Prayers, p. 41)
Os Bahá'ís acreditam que tanto a perspectiva teológica como a científica validam igualmente a existência de Deus:
... entende-se que por um homem estar doente que deve haver alguém que esteja com saúde; pois, se não houvesse saúde, a sua doença não poderia ser comprovada. Portanto, torna-se evidente que existe um Omnipotente Eterno, Que é o possuidor de todas as perfeições, porque se não possuísse todas as perfeições, seria como a Sua criação.

Por todo o mundo da existência é o mesmo; a mais pequena coisa criada prova que existe um criador. Por exemplo, este pedaço de pão prova que ele tem um fabricante.

Louvado seja Deus! A menor mudança produzida na forma da mais pequena coisa prova a existência de um criador: então este grande universo, que é interminável, pode ter sido criado por si próprio e surgido pela acção da matéria e dos elementos? Quão evidente é o erro dessa suposição! (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, p. 6)
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Texto original: God’s Grey Areas (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 25 de novembro de 2017

Maomé: o Último Profeta?

Por Christopher Buck.


A maioria dos muçulmanos concorda: se Maomé é o "Selo dos Profetas" (Alcorão 33:40), então Maomé é o último profeta. Fim da história. Assunto encerrado.

E se Maomé também for a porta de entrada para futuros mensageiros de Deus, e não o último dos profetas? Essa possibilidade seria uma completa surpresa para muitas pessoas, especialmente para os muçulmanos. Vejamos, então, uma surpreendente tradição muçulmana, que o próprio Bahá’u’lláh refere nas Suas Escrituras.

Na Sura da Paciência - revelada em 22 de Abril de 1863 em Bagdade, no primeiro dia do Festival Bahá’í de Ridvan - Bahá’u’lláh escreveu:
Recita-lhes aquilo que a pomba celestial do Espírito arrulhou no santo Ridván do Amado, para que possam examinar o que foi esclarecido sobre o "selar" pela língua de 'Alí [Imam' Alī], ele que está bem fundamentado no conhecimento na oração de visitação pelo nome de Deus. Ele disse - e a sua palavra é a verdade! -:

"[Ele (Maomé) é] o selo do que veio antes d’Ele e o anunciador do que aparecerá depois d’Ele".

De modo tão sábio, o significado de "selar" foi mencionado pela língua da santidade inacessível. Assim, Deus designou o Seu Amigo [Maomé] para ser um selo para os Profetas que O precederam e um anunciador dos Mensageiros que aparecerão depois d’Ele. (Sura da Paciência, tradução provisória de Omid Ghaemmaghami)
Aqui, Bahá'u'lláh cita uma oração para Ali, o primeiro seguidor de Maomé. Ali, mais tarde, tornou-se o genro do Profeta quando se casou com a amada filha de Maomé, Fátima. Na história islâmica, Ali serviu como o quarto califa, o "bem guiado" chefe da Fé. Os muçulmanos xiitas consideram Ali como o legítimo sucessor do próprio Maomé. Os muçulmanos sunitas não concordam; mas todos os muçulmanos concordam que o Profeta Maomé gostava muito Ali, e que Ali foi um dos mais venerados muçulmanos de todos os tempos.

Num livro recente sobre a Sura da Paciência de Bahá'u'lláh (intitulado em persa, Sayri dar Bustan-i Madinatu's-Sabr) - o autor Foad Seddigh identificou a referência exacta da oração que Bahá’u’lláh citou originalmente, que contém esta frase surpreendente: "Ele (Maomé) é] o selo do que veio antes d’Ele e o anunciador do que aparecerá depois d’Ele".

Foad Seddigh identificou e validou esta oração junto de várias fontes autorizadas. Ele afirma que uma das suas primeiras publicações se encontra num livro intitulado Kamilu'z-Ziyarat, uma conhecida colectânea islâmica de orações de visitação, ou orações destinadas a ser lidas nos túmulos do Profeta Maomé, Imans Xiitas e outras figuras xiitas. Kamilu'z-Ziyarat provavelmente foi compilado pelo estudioso xiita Ibn Quluya (f. 978 ou 979 EC). O capítulo 11 do livro de orações de Ibn Quluya começa na página 92. Este capítulo intitula-se: "Visitar o túmulo do Comandante dos fiéis [Imam 'Ali], como deve ser visitado o túmulo e o que rezar no túmulo."

Podemos encontrar a frase a que Bahá’u’lláh se refere na pag. 97 - é a segunda "ḥadith" (tradição) citada. Esta mesma frase também se encontra em orações de visitação para o santuário de Imam Husayn e numa oração a ser lida nos santuários de todos os Imams. A oração de visitação para o santuário do Imam Ali tem exactamente as palavras que Bahá’u’lláh revelou. Esta oração, universalmente reconhecida e usada pelos muçulmanos xiitas, é atribuída ao Sexto ou ao Décimo Imans.

O entendimento de Bahá’u’lláh sobre esta tradição difere do entendimento tradicional por estudiosos xiitas. Foad Seddigh salienta esse facto. Na página 97 do livro, Seddigh cita um estudioso xiita que interpreta a tradição da seguinte maneira:
"Ou seja, [Maomé] é o selo dos Profetas que apareceram antes d’Ele ou das suas comunidades religiosas, ou do conhecimento e dos mistérios que O precederam, e o anúncio das Prova (ou seja, os Imams xiitas) que O seguiram ou do conhecimento, das ciências e da sabedoria que aparecerão depois d’Ele." (referência e tradução do original árabe por Omid Ghaemmaghami.)
Quem está certo? Os estudiosos xiitas? Ou Bahá’u’lláh? Uma coisa é certa: os estudiosos xiitas e os estudiosos Bahá’ís concordam que Maomé é "o anunciador do que aparecerá depois d’Ele".

Chegámos agora a um ponto comum. Todos os muçulmanos concordam que o profeta Maomé predisse a vinda do "Mahdi" no futuro. Os muçulmanos sunitas e xiitas também concordam que Jesus regressará no fim da história:
Foi narrado... que o Profeta disse: "A Hora não começará até que Eisa bin Maryam [Jesus, filho de Maria] desça como juiz justo e governante justo. (Sunan Ibn Majah 4078)
Estas duas tradições estão classificadas pelos estudiosos sunitas como "seguras", isto é plenamente autênticas, e são reconhecidos também pelos muçulmanos xiitas. E assim pode-se dizer com sinceridade que Maomé é o "anunciador do que aparecerá depois d’Ele", e que esta tradição se refere ao Mahdi e a Jesus, que aparecerão no Dia do Juízo.

Os Bahá’ís acreditam que esses dois salvadores do fim dos tempos - o Mahdi e Jesus - já apareceram.

O Báb, precursor e arauto de Bahá’u’lláh, não era outro senão o esperado Mahdi, predito pelo profeta Maomé. O próprio Bab proclamou:
A Revelação divina associada ao advento de Aquele que é o vosso prometido Mihdi [o Mahdi] mostrou-se muito mais maravilhosa do que a Revelação com a qual Maomé, o Apóstolo de Deus, foi investido. Se apenas pudésseis ponderar nisso. (Selections From the Writings of the Bab, p. 146)

"Para o Islão sunita", Shoghi Effendi escreveu, Bahá’u’lláh foi "a descida do «Espírito de Deus» [Jesus Cristo]" (God Passes By, p. 94)
Então, como é que os Bahá'ís entendem a oração de visitação muçulmana citada acima? Maomé, o "Selo dos Profetas", era "um selo para os profetas que O precederam e um anunciador dos Mensageiros que aparecerão depois d’Ele", nomeadamente O Báb, Bahá’u’lláh e outros futuros mensageiros de Deus.

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Texto original: Muhammad: the Last Prophet? (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 18 de novembro de 2017

O Selo dos Profetas: o encontro com Deus no Último Dia

Por Christopher Buck.


Tendo crescido e sido educado como Cristão, muitas vezes ouvi a expressão: "A Bíblia diz…" seguida de uma citação a que a pessoa identificava o respectivo capítulo e versículo.

E também era frequente ouvir uma resposta do género: "Sim, mas a Bíblia também diz…", seguida de outro versículo como justificação de uma opinião contrária. Era como se o texto sagrado estivesse a discutir consigo próprio!

Particularmente interessante em todos os textos sagrados - e problemáticos na maioria - são as profecias sobre o Último Dia, o Dia do Juízo, etc. Porquê? Porque são difíceis de entender. Lêem-se com facilidade, mas são intrigantes - sejam textos da Bíblia, sejam textos do Alcorão.

Então vamos analisar as profecias dos últimos dias no Alcorão. É verdade que o Islão radical está nas notícias todos os dias. É uma vergonha, pois isso mancha o bom nome do Islão.

Mas vamos pensar no Islão tradicional - o Islão mais conhecido - onde a maioria dos muçulmanos são pessoas comuns, como qualquer um de nós, e que apenas querem viver em paz e prosperidade, e que obtêm muita inspiração e orientação na sua Fé.

Provavelmente, a maioria dos muçulmanos (quase 2 mil milhões de muçulmanos no mundo hoje) afirmará que o Profeta Maomé é o "Selo dos Profetas".

Isto baseia-se num versículo muito importante no Alcorão: 33:40. Muitos consideram este versículo como o versículo doutrinariamente mais importante do Alcorão.

Com a possível excepção dos Ahmadiyya (um novo movimento religioso principalmente centrado no Paquistão), isso significa que os muçulmanos consideram Maomé como o último profeta. Ponto final. Assunto encerrado. Fim da conversa.

Os Bahá'ís concordam. De facto, Bahá’u’lláh enaltece Maomé da seguinte maneira, que vai um pouco ultrapassa o Alcorão 33:40:
Glorificado és tu, ó Senhor, meu Deus! Peço-Te, pelos Teus Eleitos e pelos Portadores da Tua Confiança, e por Aquele a Quem ordenaste ser o Selo dos Teus Profetas e dos Teus Mensageiros, que permitas que a Tua lembrança seja a minha companheira, e o Teu amor seja o meu objectivo, e a Tua face o meu objectivo, e o Teu nome a minha lâmpada, e a Tua vontade o meu desejo, e o Teu prazer a minha alegria. (Bahá’í Prayers, p. 74)
Agora consideremos o seguinte: os Profetas profetizam; Eles prevêem. De acordo com a Fé Bahá'í, Maomé foi o último dos Profetas, ou seja, o último daqueles que profetizam. Por outras palavras, Maomé foi o último Profeta no "Ciclo da Profecia", que começou com Adão.

Muito bem. Maomé é o último Profeta. O último a profetizar. E o que vem depois? Quem vem depois?

A profecia termina quando começa o cumprimento. Depois do "Ciclo da Profecia" vem o "Ciclo de Cumprimento".

E o que significa isso, podemos perguntar?

É simples: as profecias predizem o futuro. Quando as profecias se tornam realidade, então elas cumprem-se. A profecia torna-se a realidade. É assim que funciona.

Cerca de um terço do Alcorão prediz o Último Dia. O Último Dia é um bom exemplo do que os Bahá’ís pretendem dizer com "Ciclo de Cumprimento".

Apesar dos profetas profetizarem, as suas profecias nem sempre são claras, e muitas vezes exigem interpretação. Para iniciar a interpretação de qualquer profecia temos de colocar esta questão fundamental: "A profecia é literal ou figurada?"


Vamos ver a primeira profecia que surge no Alcorão após o versículo 33:40. Ela aparece apenas quatro versículos mais à frente, no 33:44:
No dia em que eles forem levados à presença do seu Senhor, a sua saudação de uns para os outros será: "A paz esteja contigo". Deus preparou-lhes uma recompensa honrosa. (Alcorão 33:44, tradução de Muhammad Sarwar)
Outra tradução do mesmo versículo afirma o seguinte:
A sua saudação, no dia em que O encontrarem, será "Paz!" E Ele preparou-lhes uma generosa retribuição. (Alcorão 33:44, tradução de A.J. Arberry)
A tradução de Arberry ("O encontrarem") é literal. A tradução de Sardar ("levados à presença do seu Senhor ") é figurada. Isso está mais em consonância com a perspectiva Bahá’í.

Agora vamos usar nossa chave de quatro passos para compreender a linguagem profética:

Passo 1: Se é impossível, então não é literal. Porque é que a leitura literal é impossível aqui? Porque é impossível conhecer Deus directamente, frente a frente. O próprio Alcorão diz: "Nenhuns olhos mortais podem vê-Lo, mas Ele pode ver todos os olhos. Ele é Todo-Generoso e Omnisciente." (6:103, tradução de Muhammad Sarwar)

Passo 2: Se não literal, então é figurado. Qual é a comparação ou analogia aqui representada? O que se compara a "conhecer Deus"? Temos de concordar com isto: "encontrá-Lo" é literal. E isso é impossível. O que é possível é ser "levado à presença do seu Senhor", tal como traduz Sarwar.

Passo 3: Se é figurado, então é simbólico. Quais são as características que esse símbolo representa? O que significa "encontrar Deus"? Seja qual for o significado de "presença do seu Senhor", é certamente um evento em que a vontade de Deus é comunicada e divulgada de forma clara. Se não podemos encontrar-nos directamente com Deus, a próxima melhor coisa é encontrar o embaixador de Deus, o mensageiro de Deus, ou aquilo a que os Bahá’ís chamam "Manifestante de Deus", que expressa "Deus" em natureza, mas não em essência.

Passo 4: Se é simbólico, então é espiritual e social. Quem (ou o que) representa essas características? De acordo com os ensinamentos Bahá’ís, quando Deus envia um mensageiro à humanidade, esse mensageiro vem da presença de Deus e, portanto, representa Deus. Quem tem a graça e a bênção de encontrar o mensageiro de Deus, conseguiu - numa forma figurada e simbólica - "encontrar Deus" ao ser "levado à presença do seu Senhor".

Pensemos na "presença de Deus" como o carisma divino, uma aura de santidade, o nimbo do sagrado, o efeito de halo. Talvez seja uma surpresa saber que que o "carisma" é realmente um termo científico usado no mundo académico: os sociólogos da religião falam sobre os fundadores das grandes religiões mundiais como tendo "carisma".

Fiz o melhor que pude para simplificar a perspectiva Bahá'í sobre estes dois versículos-chave do Alcorão, que representam um grande plano dos dois ciclos: o Ciclo da Profecia, seguido pelo Ciclo de Cumprimento. Bahá’u’lláh deixa claro neste importante parágrafo do seu Livro de Certeza, dirigido ao mundo islâmico:
E no entanto, através do mistério do primeiro versículo [Alcorão 33:40], eles afastaram-se da graça prometida pelo segundo [Alcorão 33:44], apesar do facto do “alcançar da Presença divina” no “Dia da Ressurreição” ser explicitamente afirmada no Livro. Foi demonstrado e provado definitivamente, através de evidências claras, que por “Ressurreição” se pretende significar o aparecimento do Manifestante de Deus para proclamar a Sua Causa, e por “alcançar da Presença Divina” se pretende significar o alcançar da presença da Sua Beleza na pessoa do Seu Manifestante. Pois, em verdade, “Nenhum olhar O percebe, mas Ele percebe todos os olhares” [Alcorão 6: 103]. Não obstante todos estes factos indubitáveis e exposições claras, eles agarraram-se loucamente ao termo “selo”, e permaneceram totalmente privados do reconhecimento d’Aquele Que é o Revelador tanto do Selo como do Princípio, no dia da Sua presença [Baha’u’llah]. (Kitab-i-Íqán, ¶182) (citações do Alcorão em parêntesis rectos)

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Texto original: The Seal of the Prophets: Meeting God on the Last Day (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 11 de novembro de 2017

Venerar Cristo e Bahá’u’lláh como Coração e Alma

Por Christopher Buck.

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade, Príncipe da paz. (Isaías 9:6)
Fui educado como cristão, e sempre me ensinaram que Jesus era o único caminho para Deus. Anos mais tarde, tornei-me Bahá'í. Antes disso, tive que desfazer esta noção de "apenas Jesus" que recebi durante uma parte significativa da minha infância e adolescência.

Ao investigar a Fé Bahá’í - especialmente as afirmações da verdade de Bahá’u’lláh - sempre temi que, de alguma forma, pudesse perder a minha salvação. Para alterar ou mudar as minhas convicções, eu arriscava muito - para dizer o mínimo.

Deparei-me com esta questão: posso acreditar simultaneamente em Jesus Cristo e Bahá’u’lláh? Em caso afirmativo, como? ‘Abdu’l-Bahá respondeu a uma pergunta semelhante:
Colocaste-me duas perguntas: "Se o mesmo espírito se manifesta em todos os Manifestantes e Profetas, então, qual é a distinção ou diferença entre Cristo (ou melhor, Jesus) e os outros Profetas; também [qual é a diferença] entre Pai e Filho? "

Saibe que o espírito humano é um só, mas manifesta-se em vários membros do corpo de uma certa (medida ou) forma. O espírito humano existe no olhar (olhos); também existe no cérebro, que é a localização de grandes funções e poderes; também existe no coração, cujo órgão está fortemente ligado ao cérebro ou ao centro da mente; e o coração, ou o centro que é a ligação com o cérebro, tem uma função, efeito e aparência distintas e separadas...

Falando de forma figurada, o Pai é o centro do cérebro e o Filho é o centro do coração; o resto dos Profetas são membros e peças. Neste caso, o Pai e o Profeta são duas expressões da mesma coisa, como o homem e a criatura são dois nomes da mesma realidade. A palavra "homem", porém, é maior que a palavra "criatura" porque contém um significado mais importante do que o nome "criatura"; ambos são o mesmo. (Tablets of Abdul-Baha, pp. 102-103)
Neste texto notável, quando ‘Abdu’l-Bahá se refere ao "Filho", significa Jesus Cristo; da mesma forma, "o Pai" refere-se a Bahá’u’lláh.

A reacção do leitor – com justa indignação – poderá ser: "O quê??? Eu sempre pensei que o 'Pai' era Deus e apenas Deus!” Sim, isso está correcto. Mas convido o leitor a ler novamente a profecia de Isaías 9:6, citada acima. Este excerto, amplamente conhecido como a "Profecia Natalícia", sugere, por implicação, que o "Pai da eternidade" não pode logicamente ser o "Filho de Deus" - uma pedra angular fundamental da teologia Trinitária, e uma crença base daquilo que os teólogos sistemáticos às vezes se referem como "alta Cristologia".

Na sua "Epístola ao Papa Pio IX", Bahá’u’lláh afirma o seguinte:
Ó confluência de monges! As fragrâncias do Todo-Misericordioso sopraram sobre toda a criação. Feliz o homem que abandona os seus desejos e se segura firmemente à orientação. Ele, em verdade, é dos que alcançaram a presença de Deus neste Dia, um dia em que o alvoroço se apossou dos habitantes da terra e encheu de consternação todos salvo aqueles que foram libertados por Deus, Aquele que faz curvar os pescoços dos homens.

Adornais os vossos corpos, quando as roupas de Deus estão manchadas com o sangue de ódio pelas mãos do povo da negação? Saí das vossas habitações e ordenai ao povo que entre no Reino de Deus, o Senhor do Dia do Juízo. A Palavra que o Filho ocultou tornou-se manifesta. Foi enviada na forma de templo humano, neste dia. Bendito seja o Senhor, Que é o Pai! Ele, na verdade, veio às nações na Sua mais grandiosa majestade. Voltai as vossas faces para Ele, ó confluência dos justos!

Ó seguidores de todas as religiões! Vemos-vos vagueando enlouquecidos nos desertos do erro. Sois os peixes deste Oceano; então porque vos privais daquilo que vos sustém? Vejam! Agitou-se perante as vossas faces. Apressai-vos a ele vindo todas as regiões. Este é o dia em que a Rocha brada, grita e celebra o louvor do seu Senhor, o Possuidor de tudo, o Altíssimo, dizendo: “Vejam! O Pai já veio, e aquilo que foi prometido no Reino cumpriu-se!” Esta é a Palavra que foi preservada por detrás dos véus da grandeza e que, quando a Promessa se cumpriu, derramou com sinais claros o seu esplendor desde o horizonte da Vontade Divina (The Summons of the Lord of Hosts, pp. 58–59)
De forma sucinta, vamos agora aplicar à Profecia Natalícia (Is 9:6), os quatro passos para entender a profecia:

1º Passo: Se impossível, então não é literal.

Esta profecia não é literal, porque o "Pai da eternidade" não pode ser Deus se o nascimento mencionado na profecia de Isaías é humano: "Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu" (Isaías 9: 6). A maioria dos Cristãos pensa que "o Filho" aqui significa "o Filho de Deus" (Jesus Cristo). Mas "o Filho de Deus" não pode ser um e o mesmo que o "Pai da eternidade". Sim, eles são "um" em espírito, mas não idênticos.

2º Passo: Se não é literal, então é figurado.

'Abdu'l-Bahá apresenta uma perspectiva importante sobre a analogia expressa aqui: "Falando de forma figurada, o Pai é o centro do cérebro e o Filho é o centro do coração; o resto dos Profetas são membros e peças. Neste caso, o Pai e o Profeta são duas expressões da mesma coisa, como o homem e a criatura são dois nomes da mesma realidade." Por outras palavras, podemos interpretar "o Pai" figurativamente, não literalmente.

3º Passo: Se é figurado, então é simbólico.

Quanto às qualidades que este símbolo representa, "o governo está sobre os seus ombros" é uma das funções do símbolo do "Pai da eternidade". Esse governo provavelmente será um governo mundial, especialmente porque o "Pai da eternidade" é também o "Príncipe da Paz".

4º Passo: Se é simbólico, então é espiritual e social.

'Abdu'l-Bahá aplica a Profecia Natalícia a Bahá’u’lláh como o "pai". Bahá’u’lláh afirma claramente: "A Palavra que o Filho ocultou tornou-se manifesta. Foi enviada na forma de templo humano, neste dia. Bendito seja o Senhor, Que é o Pai! Ele, na verdade, veio às nações na Sua mais grandiosa majestade".

Assim podemos perceber que os Bahá’ís veneram Cristo como o coração ("o Filho é o centro do coração") e Bahá’u’lláh como alma.

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Texto original: Revering Christ and Baha’u’llah as Heart and Soul (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 4 de novembro de 2017

Identificar a Linguagem Figurada para interpretar as Profecias

Por Christopher Buck.


Assim, medita sobre a palavra de um dos Profetas quando Ele deu a conhecer às almas dos homens, através de alusões veladas e símbolos ocultos, as boas novas d’Aquele que devia vir depois d’Ele, para que possas ter a certeza que as suas palavras são insondáveis para todos, salvo aqueles que estão dotados de um coração compreensivo. Ele disse: "Os seus olhos eram como chama de fogo", e "os pés semelhantes ao latão reluzente", e "da sua boca saía uma aguda espada". Como podem estas palavras ser interpretadas literalmente? Se alguém aparecesse com todos estes sinais, certamente não seria humano. (Bahá'u'lláh, Gems of Divine Mysteries, p. 52)
Entender profecias exige uma boa compreensão das figuras de estilo. A linguagem figurada e simbólica usada nas profecias utiliza cinco figuras básicas de retórica (existem muitas) que analisaremos de seguida; depois veremos como elas surgem na profecia bíblica e como os ensinamentos Bahá'ís as interpretam. Estas cinco figuras são:
1. Comparação (uma semelhança).
2. Metáfora (uma representação).
3. Parábola (uma fábula ou um símil ampliado).
4. Alegoria (uma metáfora ou história alargada).
5. Símbolo (uma coisa material que representa uma verdade espiritual).
Podemos ver a diferença entre uma comparação e uma metáfora nestes dois versículos bíblicos semelhantes: "Porque toda a carne é como a erva", de I Pedro 1:24, é uma comparação entre uma coisa com outra usando as palavras "como" ou "semelhante". "Toda carne é erva", a metáfora de Isaías 40:6, deixa de ser comparação e torna-se uma representação directa.

Um símbolo - como nas palavras de Jesus do Evangelho de Tomé, frase 7 - apresenta-se assim: "Bem-aventurado o leão que o homem come, pois o leão tornar-se-á homem; e maldito é o homem que o leão come, pois o leão tornar-se-á homem".

Neste "logion" (ou o dito de Jesus), um símbolo enigmático sinistro e profundo, sugere que o "leão" pode representar a natureza animal (ou as paixões) do homem.

Voltemos agora à questão de como entender a profecia identificando figuras de estilo usadas no texto. Vejamos Apocalipse 19: 11-15, por exemplo:
E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça.E os seus olhos eram como chama de fogo; e sobre a sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabia senão ele mesmo;E estava vestido de uma veste salpicada de sangue; e o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus;E seguiam-no os exércitos no céu, em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro;E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com vara de ferro; e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso;
Aqui está a minha análise do texto figurado deste excerto misterioso é a seguinte:
1. Comparação: "os seus olhos eram como chama de fogo ".
2. Metáfora: "o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus"; "o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso".
3. Parábola: "os seus olhos eram como chama de fogo; e sobre a sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabia senão ele mesmo".
4. Alegoria: "E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça".
5. Símbolo: "céu"; "cavalo branco"; "o que estava assentado sobre ele".
A interpretação Bahá'í deste excerto fascinante e profundo, explica os seus mistérios:
Agora explicarei brevemente o verdadeiro significado destas palavras, para que possas descobrir os seus mistérios ocultos e ser dos que entendem...

Sabe, pois, que Ele, que proferiu estas palavras nos reinos da glória, pretendeu descrever os atributos d’Aquele que virá, em termos tão velados e enigmáticos que escapam à compreensão do povo do erro.

Assim, quando Ele disse: "Os seus olhos eram como chama de fogo", Ele aludiu apenas à perspicácia da visão e à acuidade da visão do Prometido, que com os Seus olhos queima todo véu e capa, dá a conhecer os mistérios eternos no mundo contingente, e distingue os rostos que estão obscurecidos com a poeira do inferno daqueles que brilham com a luz do paraíso.

Quanto às palavras "pés semelhantes ao latão reluzente", isso significa a Sua constância ao ouvir o chamamento de Deus que o conduz: "Sê firme conforme te foi ordenado". Ele será tão perseverante na Causa de Deus, e evidenciará uma tal firmeza no caminho do Seu poder, que, mesmo que todos os poderes da terra e do céu O negassem, Ele não vacilaria na proclamação da Sua Causa, nem fugiria do Seu mandamento na promulgação das Suas Leis. Em vez disso, Ele será tão firme como as montanhas mais altas e os picos mais elevados... Já viste neste mundo latão mais forte, ou lâmina mais afiada, ou montanha mais firme do que esta?...

E além disso, Ele disse: "Da sua boca saía uma aguda espada." Sabe que, uma vez que a espada é um instrumento que divide e separa, e porque da boca dos Profetas e dos Eleitos de Deus procede aquilo que separa o crente do infiel e do amante do amado, este termo foi muito utilizado, e, além desta divisão e separação não se pretende qualquer outro significado. (Bahá'u'lláh, Gems of Divine Mysteries, pp. 53-56)
Vamos rever os quatro passos para "Entender a Profecia":
Passo 1: Excluir significado literal.
Passo 2: Identificar figuras de estilo.
Passo 3: Verificar as características representadas.
Passo 4: Aplicar aos eventos espirituais.
Usando essa abordagem, aqui está como Bahá’u’lláh interpretou Apocalipse 19:11-15:
Passo 1: "Como podem estas palavras ser interpretadas literalmente?"
Passo 2: "Medita sobre alusões veladas e símbolos ocultos; ... descobrir os seus mistérios ocultos".
Passo 3: "Descrever os atributos d’Aquele que virá".
Passo 4. Reconhecer "o Prometido" - Bahá'u'lláh.

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Texto original: Identifying Figurative Language to Interpret Prophecies (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Mais uma dirigente Bahá'í libertada no Irão


Fariba Kamalabadi, membro do antigo grupo de dirigentes Bahá’ís Iranianos, foi libertada da prisão após concluir a pena a que tinha sido condenada. É segundo membro deste grupo dirigente (os chamados “Yaran”) a ser libertado.

Embora já não esteja presa, a Sra. Kamalabadi, psicóloga, retomará a sua vida num país que não mudou no que toca ao seu tratamento prejudicial e injusto para com os Bahá'ís. Entre as muitas outras formas de repressão, encontrará uma comunicação social plenamente hostil em relação à comunidade Bahá'í. Também verá as enormes limitações nas oportunidades de emprego na administração pública e no sector privado, apenas porque é Bahá'í - limitações concebidas e implementada pelo governo iraniano após a Revolução Islâmica, em 1979.

A Sra. Kamalabadi, hoje com 55 anos, fazia parte do grupo ad hoc conhecido como "Yaran", que tratavam das necessidades básicas espirituais e materiais da comunidade Bahá’í iraniana e foi formado com pleno conhecimento e aprovação das autoridades, depois da ilegalização das instituições administrativas Bahá’ís na década de 1980.

A Sra. Kamalabadi e outros cinco membros do grupo foram detidos em Maio de 2008 após rusgas nas suas residências. Outro membro, Mahvash Sabet, foi detida dois meses antes, e libertada no mês passado depois de cumprir a sua pena.

Os cinco membros restantes do Yaran também estão perto de concluir as penas de prisão a que foram condenados Eles são: Jamalodin Khanjani, de 84 anos; Afif Naeimi, de 56 anos; Saeid Rezai, de 60 anos; Behrooz Tavakkoli, de 66 anos; e Vahid Tizfahm, de 44 anos.

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FONTE: Second member of Yaran released (BWNS)

Contentar-se apenas com uma existência animal?