sábado, 21 de abril de 2018

Ressurreição: as diferenças entre os Evangelhos de Marcos e Mateus

Por Tom Tai-Seale.


As ressurreições dos Manifestantes Divinos não são do corpo. Todos os Seus estados, as Suas condições, os Seus actos, as coisas que definiram, os Seus ensinamentos, as Suas afirmações, as Suas parábolas e as Suas instruções têm um significado espiritual e divino, e não têm ligação com coisas materiais. (‘Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, p. 103)
Se queremos, realmente, compreender a ressurreição, precisamos estudar as narrativas nos Evangelhos.

Podemos aprender muito sobre a ressurreição examinando as narrativas dos evangelhos pela ordem em que foram escritas. O Evangelho de Marcos - o primeiro dos evangelhos a ser escrito - não continha qualquer narrativa da ressurreição. Na sua obra História da Igreja, Eusébio, o primeiro grande historiador cristão, diz-nos que a narrativa da ressurreição que agora existe em Marcos foi adicionada mais tarde por um autor conhecido como Aristion. A narrativa original terminava com Maria Madalena, Salomé e Maria (a mãe de Tiago) a encontrar um jovem sentado no interior do túmulo vazio. O jovem no túmulo disse-lhes: "Mas ide, dizei aos seus discípulos, e a Pedro, que Ele vai adiante de vós, para a Galileia; ali O vereis, como Ele vos disse."

O versículo seguinte - que diz que elas fugiram do túmulo vazio - encerra a narrativa. Por outras palavras, Marcos não descreveu nenhum reaparecimento físico de Jesus aos Seus discípulos. Alguns argumentam que Marcos sugere uma ressurreição física nesse final, mas isso representa apenas um de muitos significados possíveis. Por exemplo, o jovem que fala no túmulo pode ter pertencido a um grupo enviado para recuperar o corpo e levá-lo para a Galileia. E as suas instruções para as mulheres podem ter simplesmente reforçado a mensagem para ir ao local de encontro pré-estabelecido, conforme especificado em Marcos 14:28. Não está claro se o corpo que eles levaram estava morto ou, devido à necessidade de terminar a crucificação rapidamente, talvez ainda estivesse vivo, embora gravemente ferido.

Como vimos, Marcos escreve que quando as três mulheres foram ao sepulcro e o encontraram aberto também encontraram um jovem sentado no túmulo. Mateus (28:2) relata o mesmo evento de forma diferente: menciona que apenas duas mulheres foram ao sepulcro (não refere Salomé) e que, quando se aproximaram, "houvera um grande terramoto, porque um anjo do Senhor, descendo do céu, chegou, removendo a pedra, e sentou-se sobre ela."

Marcos nada diz sobre um terramoto ou sobre um anjo. À medida que a narrativa de Mateus (28:9) prossegue, o anjo diz às mulheres para saírem e avisarem os discípulos que Cristo se ergueu dos mortos. Ele diz: "E, indo elas, eis que Jesus lhes sai ao encontro, dizendo: Eu vos saúdo. E elas, chegando, abraçaram os seus pés, e o adoraram." Seguidamente, diz-se que Jesus apareceu num monte na Galileia a onze discípulos: “E, quando o viram, o adoraram; mas alguns duvidaram.” (28:17)

Devemos acreditar na visão de Marcos ou de Mateus? Atendendo à inclinação de Mateus para o exagero - como se percebe nas suas narrativas exageradas dos milagres descritos por Marcos - não será a versão de Marcos mais credível? Não estaria Mateus a escrever para um público com paixão e expectativa de milagres? Estaria apenas a relatar algumas das histórias fantásticas que escutara? Ou será que juntou os relatos literais e figurativos e deixou que os leitores fizessem a sua interpretação?

Estas questões não são fáceis de responder, mas algumas observações adicionais podem ajudar-nos a encontrar a verdade. O relato de Mateus é muito espartano. Não contém diálogos. As duas Marias e os onze discípulos nada têm a dizer a Jesus - o que é improvável, se de facto Jesus tivesse ressuscitado fisicamente. A acção também passa de um lugar para outro sem explicação dos passos intermédios. Jesus vai do sepulcro para a Galileia e depois para lugar nenhum. Nada é dito sobre para onde vai Jesus, nem o que Ele faz após o encontro com as duas Marias, ou depois de encontrar os discípulos. Não acontece a Ascensão final. E por outro lado, o autor mistura imagens materiais e espirituais de uma forma que nos deixa constantemente a questionar qual é qual. Estará ele a falar de um terramoto e um anjo físicos - e qual seria o aspecto do anjo? Será o monte da Galileia uma referência a um monte físico ou a um monte de fé? Terá a ressurreição sido física ou espiritual? E se fosse física como poderia algum discípulo duvidar?

Os Bahá’ís acreditam que apenas podem ser respondidas se recusarmos o sentido literal destas narrativas. No próximo artigo sobre Lucas e João, essa conclusão torna-se ainda mais forte.

----------------------------------
Texto Original: The Conflicting Gospels of Mark and Mathew (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Baha'i: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 14 de abril de 2018

Tahirih: a Emancipadora das Mulheres no Médio Oriente

Por Linda Ahdieh.

Em meados do século XIX, um jovem persa chamado Siyyid Ali Mohammad - o Bab - anunciou ser o Prometido de Deus.

Os fiéis Muçulmanos, que durante anos desejaram a vinda do Prometido, viram-se subitamente perante dúvidas, alegria enorme e esperança desenfreada. O Báb (que significa “o Portão”) afirmava que tinha chegado uma nova Fé e desafiou as pessoas a investigarem livremente as Suas afirmações. Alguns ficaram inebriados de amor pelo Báb e abraçaram a sua causa. Outros, confusos, continuaram perdidos na procura da verdade. E houve ainda outros que, com o maior preconceito e descrença, e temendo perder o seu estatuto e autoridade, tentaram apagar a chama da recém-nascida Fé Bábi.

Inspirados por profecias dos textos sagrados e pela orientação e ensinamentos dos seus mestres espirituais, várias pessoas procuravam a verdade e viajavam em busca do Prometido. Antes do Bab proclamar publicamente a Sua nova Fé, dezoito seguidores (conhecidos na história como Letras dos Viventes) reconheceram-No de forma independente e levantaram-se para divulgar os Seus ensinamentos.

Entre as dezoito Letras dos Viventes havia uma única mulher. Ela aderiu à fé do Báb numa época em que as mulheres eram, na prática, servas dos homens e estavam absolutamente privadas de qualquer poder, reconhecimento ou voz. As pessoas acreditavam que as mulheres eram fracas, que eram criadas apenas para ter filhos e cuidar do lar, e que não tinham qualquer papel na sociedade.

Num ambiente desses, o aparecimento de uma mulher altamente educada, revolucionária e corajosa, com sabedoria e conhecimento incomparáveis, foi um acontecimento único e espantoso. Esta mulher nobre e distinta, chamada Fatimeh, era como uma estrela brilhante, iluminando a Pérsia com as suas palavras poéticas e acções corajosas. Tornou-se uma figura mítica, que ainda hoje é reverenciada.

Casa de Tahirih em Qazvin.
Fatimeh era filha de um conhecido clérigo muçulmano de Qazvin. O seu tio também era um clérigo particularmente influente e tinha autoridade absoluta na cidade. Desde muito nova, Fatimeh estudou profundamente os temas religiosos. Teve a sorte de poder aceder à biblioteca particular do seu pai e da sua prima, o que lhe permitiu passar grande parte do seu tempo a aprender, estudar e investigar. Rapidamente, a sua compreensão profunda e o poder das suas palavras eloquentes atraíram os corações de muitos dos seus familiares e amigos, e sua fama como erudita e pensadora poderosa cresceu.

Com os seus estudos - e apesar da forte oposição do pai e do tio - ela desenvolveu um interesse pelos ensinamentos dos Shaykhi Sufis. Por fim, reconheceu a verdade dos ensinamentos do Shaykh Ahmad Ahsai - que tinha previsto o aparecimento do Prometido - e começou a corresponder-se com o seu sucessor, Siyyid Kazim Rashti. O seu estilo de escrita e os temas da sua investigação foram tão convincentes e profundos que Siyyid Kazim lhe concedeu o título de “Consolo dos Olhos” (Qurratu'l-Ayn).

Os alunos de Siyyid Kazim, que sabiam sobre o seu profundo conhecimento, pediram-lhe que lhes fosse permitido aprender com ela. Ela aceitou o pedido deles e - porque uma mulher naquele tempo e lugar não podia enfrentar homens em público - deu as aulas por detrás de uma cortina, respondendo às muitas perguntas sobre religião e jurisprudência dos seus novos alunos. Isso aumentou a sua fama nos países vizinhos. Ter uma mulher professora na escola de jurisprudência era algo inédito!

Durante esses anos, a notícia do aparecimento do Báb espalharam-se pelas cidades e montanhas, e chegaram a Fatimeh, primeiramente num sonho, quando ela:
... jejuava de dia, praticava disciplinas religiosas, passava a noite em vigílias e entoava orações. Certa noite, quando se aproximava o amanhecer, deitou a sua cabeça na almofada, perdeu toda a consciência desta vida terrena e teve um sonho; na sua visão, um jovem, um Siyyid, vestindo um manto preto e um turbante verde, apareceu-lhe no céu; ele parado no ar, a recitar versículos e a rezar com as mãos erguidas. Imediatamente, ela memorizou um desses versículos e escreveu-o no seu caderno quando acordou. Depois do Bab anunciar a Sua missão... um dia, [ela] estava a ler uma parte de um texto, e encontrou o mesmo versículo, que tinha escrito após o sonho. Imediatamente deu graças, e caiu de joelhos curvando a testa no chão, convencida de que a mensagem do Bab era a verdade. (‘Abdu’l-Bahá, Memorials of the Faithful, pp. 193-194)
Numa carta e em algumas linhas de poesia, ela transmitiu ao Bab o seu reconhecimento da Sua mensagem. Ao receber a carta de Fatimeh, o Bab aceitou a sua fé - e ela tornou-se a única mulher entre as Letras dos Viventes.

Isto demonstrava que, na nova revelação, mulheres e homens são iguais, e que as mulheres rapidamente conquistariam um lugar central na sociedade.

Após reconhecer a nova revelação, Fatimeh dedicou a sua vida à divulgação os ensinamentos do Báb. Isso trouxe-lhe muitos problemas e enorme sofrimento. À medida que a sua fama crescia, aumentava a oposição pública da sua família contra ela. Fatimeh ignorou os ataques, e através das suas palavras escritas e proferidas, chegou a muitos Bábis em todo o país e regou a árvore da sua fé.

Em 1848, deslocou-se à aldeia de Badasht, onde participou numa importante conferência planeada por Bábis proeminentes para anunciar a nova revelação e revogar a lei muçulmana. Nesta conferência, recebeu o título de "Tahirih" - “a Pura”.

Durante a conferência de Badasht, Tahirih desempenhou um papel histórico que simbolizou a separação da Fé Bábi de anteriores dispensações religiosas. As suas acções ilustraram a absoluta independência da revelação do Báb e também elevaram o estatuto e a condição das mulheres em todo o Médio Oriente. Na conferência, Tahirih retirou o véu que lhe cobria o rosto em público - um acto simbólico absolutamente chocante para aquele tempo e lugar - e aconselhou todas as mulheres a levantarem-se e a reivindicarem os direitos humanos dados por Deus, encorajando-as a lutar na área da educação e serviço social. Defendeu aberta e radicalmente a emancipação das mulheres.

Dois anos após a conferência, foi detida e levada para Teerão; ficou presa e em 1852 foi assassinada por ordem da corte real. Como milhares de Bábis durante esse tempo, ela deu a sua vida pelas suas crenças. A história reconheceu a grande contribuição de Tahirih para a reforma social e colocou-a entre aquelas mulheres cujos nomes iluminarão para sempre a história da humanidade. Edward G. Browne, um conceituado orientalista britânico, escreveu:
O aparecimento de uma mulher como Qurratu'l-Ayn é em qualquer país e em qualquer época um fenómeno raro, mas num país como a Pérsia é um prodígio, ou melhor, quase um milagre. Igualmente devido à sua maravilhosa beleza, aos seus raros dons intelectuais, à sua fervorosa eloquência, à sua destemida devoção e ao seu glorioso martírio, ela destaca-se de forma incomparável e imortal entre as suas compatriotas. Se a religião Bábi não tivesse outra pretensão de grandeza, isto seria suficiente: produziu uma heroína como Qurratu'l-Ayn.

----------------------------------
Texto Original: Tahirih: the Great Emancipator of Middle Eastern Women (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Linda Ahdieh Grant pertence à sétima geração de Bahá’ís. Tem Doutoramento na John Hopkins University School of Public Health e foi professor de epidemiologia. É casada em tem dois filhos. Actualmente é professora na School of Public Health at Emery University, em Atlanta, Georgia.

sábado, 7 de abril de 2018

O Filho do Homem está no Céu

Por Tom Tai-Seale.

Observa que se diz: "O Filho do Homem está no céu", apesar de naquele tempo Cristo ter estado na terra. Repara também que se diz que Cristo veio do céu, embora tenha vindo do ventre de Maria, e o Seu corpo nasceu de Maria. É claro, portanto, que quando se diz que o Filho do Homem veio do céu, isso não tem um significado exterior, mas sim interior; é um facto espiritual, não material. O significado é que, apesar de aparentemente Cristo ter nascido do ventre de Maria, Ele, na realidade, veio do céu, do centro do Sol da Realidade, do Mundo Divino e do Reino Espiritual. E como se tornou evidente que Cristo veio do céu espiritual do Reino Divino, então, o Seu desaparecimento da terra durante três dias tem um significado interior e não é um facto exterior. Do mesmo modo, a Sua ressurreição no interior da terra também é simbólica; é um facto espiritual e divino, e não material; e do mesmo modo, a ascensão ao céu é uma ascensão espiritual e não material. (‘Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, pp. 103-104)
Alguns cristãos seguem fielmente uma interpretação literal da Bíblia e acreditam que o próprio Paulo viu Jesus ressuscitado na carne - mas a Bíblia contém fortes evidências contra essa visão simplista e literal. Os Bahá'ís acreditam - como ‘Abdu'l-Bahá explica no parágrafo acima - que apenas podemos abordar e compreender verdadeiramente os Livros Sagrados de qualquer religião como simbólicos e metafóricos. O seu sentido espiritual, tão profundo e significativo, escapa-nos se o tratarmos como um simples relato literal de acontecimentos reais.

Por exemplo, Paulo disse aos Gálatas (1:12) que o evangelho que ele pregou não foi recebido de nenhum homem, mas que foi recebido de uma revelação de Jesus Cristo. Da mesma forma, ele diz aos Efésios (3: 3) que foi através de uma revelação que o segredo de Deus lhe foi dado a conhecer. As revelações não têm corpos. Assim, Eusébio, o primeiro historiador da igreja na sua obra História da Igreja, afirma que Paulo recebeu o seu chamamento através de uma visão. O Jesus que Paulo conheceu foi o glorificado pelo Pai, o que, segundo a sua própria terminologia farisaica, foi ressuscitado. Por outras palavras, Paulo não encontrou o corpo físico de Cristo, mas a Sua realidade espiritual. Paulo sabia bem que Jesus havia subido ao Seu legítimo lugar no reino de Deus e que, seguindo os passos de Cristo, nós também poderíamos ser salvos. Esta mensagem de ressurreição, tão central para o Cristianismo de Paulo, não pode ser entendida literalmente.

Alguns insistem e argumentam que Paulo conheceu Jesus em carne na estrada de Damasco. Mas esse argumento falha porque Paulo não escreveu o relato do seu encontro com um Cristo ressuscitado na estrada de Damasco. Se Paulo, que nunca era parco de palavras, realmente tivesse conhecido Jesus em carne na estrada para Damasco, certamente ele teria escrito repetidamente sobre isso. Mas não o fez. Quando Paulo fala de ter "visto" Jesus (por exemplo, 1 Cor 9: 1), ele não estava a falar de ver Jesus na carne. Pelo contrário, ele falava do que viu com percepção em vez de visão, de revelação e não de corpo. Paulo escreve (1 Tim 3:16): "Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito". Este Espírito, dizem as palavras seguintes, não foi visto pelos homens, mas "visto dos anjos". Neste contexto, os comentários de Paulo fazem sentido.

Quando entendido na ampla perspectiva do passado de Paulo no farisaísmo (que acreditava numa ressurreição espiritual) e a forma como Paulo usa a linguagem (o que lhe permitia usar metáforas livremente), somos levados a concluir que a ressurreição de que Paulo falou não era uma ressurreição física.

----------------------------------
Texto Original: The Son of Man is in Heaven (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sexta-feira, 30 de março de 2018

A Verdadeira Ressurreição de Jesus

Por Tom Tai-Seale.


Os livros sagrados estão repletos de significados e nunca devem ser entendidos literalmente... É essencial ter percepção divina para ver a verdade, ouvir o chamamento e obedecer - libertando os corações de todo apego mundano. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 38)
A fé Cristã depende da crença na ressurreição, tal como escreve o apóstolo Paulo (1 Cor 15,14-17); mas o que significa a ressurreição para Paulo?

A maioria dos Ocidentais conhece a história que geralmente é ensinada sobre a ressurreição de Cristo: Jesus morreu; e passados três dias, levantou-se do túmulo - literalmente - e foi visitar certas pessoas para lhes mostrar que tinha vencido a morte e que eles deviam continuar e anunciar ao mundo. No entanto, temos agora motivos abundantes para suspeitar sobre a verdade desta versão literal da ressurreição - e perceber que a ressurreição, na verdade, se refere a algo muito mais sublime e significativo.

S. Paulo, El Greco, 1606
A Bíblia atribui as primeiras narrativas escritas sobre a ressurreição a Paulo. Mas antes lermos as narrativas da ressurreição, devemos perceber a forma como Paulo usa a linguagem. A linguagem de Paulo está longe de ser simples; está cheia de imagens ricas e metáforas. Numa carta a Timóteo (1 Tim 1: 12-13), Paulo falou como se Jesus, em pessoa, o tivesse colocado no ministério e lhe perdoasse o abuso, a perseguição e a indignação que ele dirigiu contra Cristo e os Cristãos. No entanto, sabemos que Paulo nunca conheceu Jesus durante o Seu ministério. Paulo referiu-se ao facto de ter sido escolhido e perdoado como um evento espiritual e não como um evento físico. Da mesma forma, quando Paulo escreveu aos Coríntios (2 Cor 13: 5) que Jesus Cristo estava entre eles, ninguém pensava que Paulo falava sobre o corpo físico de Jesus estando literalmente no meio deles. É óbvio que ele se referia a uma realidade espiritual, e não física. Além disso, quando Paulo disse aos Cristãos de Colossos (3: 3) que eles estavam mortos, que as suas vidas estavam agora ocultas com Cristo em Deus, e que eles deviam colocar os seus pensamentos no mundo vindouro se queriam ser ressuscitados com Cristo, Paulo não estava a falar literalmente. Ele não falava com homens mortos que tivessem sido levados para o céu junto de Cristo. Ele usou linguagem simbólica para descrever uma realidade espiritual, e não uma realidade física. Os investigadores bíblicos sabem que devem ter muita cautela quando tentam atribuir um significado literal às palavras de Paulo.

A referência paulina mais frequentemente citada como prova de que Jesus se levantou fisicamente da sepultura está na sua carta aos Coríntios, onde escreve (1 Cor 15:3-8):
Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive, ainda, a maior parte, mas alguns já dormem, também. Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E, por derradeiro de todos, me apareceu também a mim, como a um abortivo.
Mas o que é que Paulo quer dizer quando escreve que Cristo "foi visto", ou “apareceu”, como se traduz na versão ”Ferreira de Almeida”? Podemos entender isso literalmente, quando já vimos que Paulo usa frequentemente imagens físicas para descrever eventos espirituais (ou seja, não físicos)? Poderia Paulo compreender a ressurreição de outra forma, mais metafórica ou simbólica?

Devemos ter presente que pregar a ressurreição tornou-se uma grande preocupação de Paulo, mesmo antes de se converter ao Cristianismo. Ele enaltecia a ideia da ressurreição, uma parte do seu farisaísmo nato e um ponto essencial de diferença entre os fariseus e os saduceus. Mais tarde, ele invocou esse facto quando foi julgado. (ver Actos 23: 6-8). Assim, para Paulo, a ressurreição existia muito antes da crucificação de Cristo. O que significava isso para ele?

Os Coríntios fizeram perguntas a Paulo sobre a ressurreição. E ele respondeu
Mas alguém dirá: Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão? Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo que há-de nascer, mas o simples grão, como de trigo, ou de outra qualquer semente. Mas Deus dá-lhe o corpo como quer, e a cada semente o seu próprio corpo. Nem toda a carne é uma mesma carne, mas uma é a carne dos homens, e outra a carne dos animais, e outra a dos peixes, e outra a das aves; E há corpos celestes e corpos terrestres; mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres. (1 Cor 15, 35- 40)
Ele continua a dizer (v. 44): "Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual.". Com esta descrição em mente, como podemos acreditar que alguns "viram" a ressurreição do corpo físico de Cristo alguns dias após a crucificação?

Podemos responder como Paulo: "Que insensato!" O corpo com o qual Deus revestiu Jesus no momento da sua libertação do corpo físico, com toda a sua dor e limitações, era - podemos assumir com segurança - muito mais glorioso do que o físico corpo. Com isso e muito mais evidências bíblicas em mente, podemos entender facilmente que a ressurreição que Paulo pregava era uma ressurreição espiritual.

----------------------------------
Texto Original: The Real Resurrection of Jesus (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 24 de março de 2018

Uma Aliança eterna com Deus

Por David Langness.


Em todas as religiões, Deus faz uma promessa à humanidade.

Quando, no Antigo Testamento, Deus fala a Moisés, essa promessa explícita tem a seguinte forma:
E agora, se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos, porque é minha a terra inteira. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. Estas são as palavras que transmitirás aos filhos de Israel. (Êxodo, 19: 5-6)
Designada como Aliança Mosaica, Deus deu a Moisés os Dez Mandamentos e, por Seu lado, exigiu que as pessoas concordassem em adorar um único Criador e obedecessem àquelas leis morais. No Novo Testamento da Bíblia, surge um pacto semelhante entre Deus e a humanidade, a que os Cristãos chamam Nova Aliança:
Se, na verdade, a primeira fosse perfeita, não haveria lugar para a segunda. De facto, censurando-os, diz: Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que farei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova, não como a aliança que fiz com os seus pais no dia em que os tomei pela mão, para os fazer sair do Egipto; porque eles não permaneceram na minha aliança, também Eu me desinteressei deles - diz o Senhor. Esta é a aliança que estabelecerei com a casa de Israel, depois daqueles dias. Diz o Senhor: Porei as minhas leis na sua mente e as imprimirei nos seus corações; serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Ninguém ensinará o seu próximo nem o seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor’; porque todos me conhecerão, do mais pequeno ao maior, pois perdoarei as suas iniquidades e não mais me lembrarei dos seus pecados. Ao falar de uma aliança nova, Deus declara antiquada a primeira; ora, o que se torna antiquado e envelhece está prestes a desaparecer. (Hebreus 8:7-13)
Podemos encontrar a visão Cristã elementar da Nova Aliança no Evangelho de João; Jesus Cristo inicia esse pacto na Última Ceia, dando um novo mandamento - "o décimo primeiro":
Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. (João 13:34-35)
No Islão, o conceito de aliança aparece novamente, distinguindo a fé da hipocrisia e pedindo aos fiéis que mantenham as suas promessas de cumprir os mandamentos de Deus:
Em verdade, Deus pede-vos que façam justiça e bem, e dêem aos familiares (o que é devido), e Ele proíbo-vos de pecar, fazer o mal e de oprimir; Ele adverte-vos para que possais estar atentos!

Obedecei à aliança de Deus com que vos comprometeste, e não quebreis os vossos juramentos depois de os afirmar, porque assim tereis a Deus como vossa garantia; em verdade, Deus sabe o que fazeis. (Alcorão 16:90-91)
Os ensinamentos Bahá’ís levam o conceito de aliança ainda mais longe, associando-a directamente ao alcançar de uma existência eterna:
Hoje, o poder vibrante nas artérias do corpo do mundo é o espírito da Aliança - o espírito que é a causa da vida. Quem for vivificado com este espírito, manifestará a frescura e a beleza da vida, estará baptizado com o Espírito Santo, nascerá de novo, estará libertado da opressão e da tirania, da negligência e da dureza que enfraquece o espírito, e alcançará vida eterna. Louvado seja Deus, pois estás firme na Aliança e no Testamento, e volves o teu rosto para o Luminar do mundo, Sua Alteza, Bahá’u’lláh. ('Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 6, pp. 263-264)
Os Bahá'ís acreditam que existe - e sempre existiu - apenas uma Aliança eterna. Todos os profetas de Deus renovam essa Aliança permanente de maneira diferente, mas todos se ligam numa corrente progressiva de revelações sucessivas. Para distinguir as diferentes versões dessa Aliança, designamo-las como aliança de Abraão, a aliança de Moisés, a nova aliança de Cristo ou a aliança de Maomé; mas, na realidade, Deus apresenta-nos a mesma aliança em cada nova dispensação religiosa. Ele promete nunca deixar a Sua criação sem a Sua sabedoria e orientação.

Conhecemos esta aliança permanente por muitos nomes. No Génesis, a história de Adão e Eva e o Jardim do Éden descreve a história da aliança, tal como a narrativa de Noé e o Dilúvio. A Arca de Noé representa a aliança, e a aliança de Noé com Deus - que inclui uma promessa de nunca mais destruir toda a vida na Terra - usa um arco-íris como símbolo desse acordo eterno. No Cristianismo, Jesus fez uma aliança com os Seus seguidores para se dirigirem para Pedro, "a rocha" base da Sua igreja. No Islão, a famosa narrativa de Fama-Gadeer ordena aos seguidores de Maomé para se dirigirem ao seu sucessor Ali. Na Fé Bahá'í, a aliança de Bahá’u’lláh - que promete uma revelação posterior, e nomeia ‘Abdu’l-Bahá como intérprete autorizado e exemplo dos Seus ensinamentos - pede a cada crente que se dirija fielmente a esse Centro da Aliança para orientação e inspiração.

Visto nesta perspectiva contínua e perpétua, os ensinamentos Bahá’ís dizem-nos que a nossa actual aliança com Deus representa a fonte inspiradora e espiritual de progresso e ordem no mundo:
A Aliança é um Orbe que brilha e resplandece para o universo. Em verdade, as suas luzes dissiparão a escuridão, o seu mar lançará a espuma da dúvida sobre as praias da perdição. Em verdade, nada no mundo pode resistir ao poder do Reino. Se toda a humanidade se unisse, poderia impedir que o sol desse a sua luz, que os ventos soprassem, que as nuvens dessem chuva, que as montanhas fossem firmes ou que as estrelas brilhassem? Não! Pelo Senhor, o Clemente. Tudo (no mundo) está sujeito à corrupção, mas a Aliança do teu Senhor continuará a permear todas as regiões. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 3, p. 170)

-----------------------------
Texto original: One Continuous Covenant with God (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 17 de março de 2018

Pode uma religião manter-se unida?

Por David Langness.


Os Bahá'ís têm - todos eles - ideias e opiniões semelhantes?

Quando se começa a investigar a Fé Bahá’í, indo às primeiras reuniões Bahá'ís, participando em cursos sobre a sua história e princípios, lendo artigos de notícias sobre as suas actividades ou pesquisando sites como BahaiTeachings.org, pode-se ficar com a impressão inicial que a resposta a esta pergunta é sim.

No fundo, a Fé Bahá’í - uma religião global com crentes de quase toda as culturas e origens - não tem seitas, denominações ou cismas. É um sistema de crenças unificado em qualquer parte do mundo; isso significa que as comunidades Bahá’ís na Índia, no Indiana (EUA) e numa reserva de índios têm uma espiritualidade com mais semelhanças do que diferenças. Um conjunto único de princípios, transmitidos directamente por Bahá’u’lláh e 'Abdu'l-Bahá, serve como a luz orientadora da religião Bahá'í. Um corpo eleito democraticamente - a Casa Universal da Justiça, com nove membros - existe para responder, mediar e resolver problemas entre os Bahá'ís. Segundo esta perspectiva, parece que os Bahá'ís devem ter ideias, pontos de vista e opiniões semelhantes.

Mas não é assim. Os Bahá'ís têm uma vasta gama de pontos de vista - porque não têm as mesmas experiências, culturas, origens ou educações, não têm apenas uma opinião.

Na verdade, essa é a definição clássica de um culto fundamentalista: um grupo altamente manipulador que controla rigorosamente as ideias, os pensamentos e as opiniões dos seus membros, geralmente com um líder carismático que insiste em impor uma ortodoxia rígida que obriga à perda de identidade pessoal.

Assim, por definição, a Fé Bahá’í é exactamente o oposto de um culto: um grupo global de pessoas amplamente diversificado, sem qualquer clero ou liderança carismática dominante, que encoraja verdadeiramente a investigação independente da verdade e o surgimento de opiniões e pontos de vista distintos.

Normalmente, seria de esperar que uma religião com estas características estivesse agora fragmentada numa multiplicidade de seitas e cismas, após quase duzentos anos de existência - mas isso não aconteceu. A religião que ensina a unidade manteve-se unida. Porquê?

Sede da Casa Universal de Justiça
A Fé Bahá’í - global na natureza, múltipla na realidade, extremamente diversificada nos seus membros - apresenta à humanidade um conjunto único de princípios globais. Primeiramente promulgada por Bahá’u’lláh, o profeta e fundador da Fé; expandida pelo Seu filho e exemplo Bahá’í, ‘Abdu’l-Bahá; interpretada e explicada pelo Guardião da Fé Bahá’í, Shoghi Effendi; e depois protegida e promovida pela Casa Universal de Justiça democraticamente eleita; estes princípios permaneceram como um conjunto unitário de ensinamentos durante quase dois séculos.

A Aliança Bahá’í, que estabelece esse processo ordenado e sequencial da transferência de autoridade, permitiu que os Bahá’ís permanecessem juntos e com a mesma Fé.

Embora, em algumas situações, tenham sido feitas tentativas por pequenos grupos de pessoas para se separarem do corpo principal da Fé Bahá'í, todos os cismas sectários fracassaram. Isso significa que, pela primeira vez na história humana, uma religião mundial conseguiu manter a sua coerência, unidade e totalidade originais, não apenas durante o seu primeiro século, mas também no segundo.

Quem estudar a história das anteriores religiões mundiais, perceberá que uma unidade tão prolongada e sustentada é altamente incomum.

A maioria das religiões dividiu-se rapidamente em diferentes denominações rivais, cismas e seitas após a morte dos seus fundadores. A unidade Cristã, por exemplo, começou a fragmentar-se durante o primeiro século. Mais tarde, o Catolicismo e a Igreja Ortodoxa Oriental dividiram os Cristãos em duas facções durante o Grande Cisma; e posteriormente o Protestantismo acelerou o processo. Hoje, a maioria dos historiadores religiosos identifica seis grandes ramos no Cristianismo: Católicos, Protestantes, igrejas Ortodoxas (do leste), Anglicanos, igrejas Ortodoxas orientais e a Igreja Assíria do Oriente. Segundo o Center for the Study of Global Christianity (Centro para o Estudo do Cristianismo Global), estes seis ramos dividiram-se em cerca 41.000 denominações e seitas cristãs no mundo de hoje.

No Islão, as denominações sunitas e xiitas formaram-se logo após o falecimento de Maomé, e hoje existem muitas seitas diferentes no Islão, apesar da advertência de Maomé no Alcorão: "...não se dividam entre vós". No Hinduísmo e no Budismo, existem tantas seitas e crenças que as mensagens originais de Krishna e Buda nem sempre são reconhecíveis em todas elas. O Judaísmo, geralmente visto como constituído por três denominações muito distintas - ortodoxos, conservadores e reformadores - tem muitas sub-denominações em cada uma destas categorias. Nenhuma grande religião mundial, excepto que a Fé Bahá’í permaneceu como uma única religião.

Isto levanta questões complicadas: como é que uma religião global pode permanecer unida? Se as pessoas vêm de diferentes culturas, contextos e civilizações e, inevitavelmente, têm opiniões e pontos de vista muito diferentes, que perspectiva comum ou conjunto de leis e princípios podem possivelmente mantê-las juntas? Num mundo onde a religião geralmente é sinónimo de lutas ideológicas e sectárias, porque é que a Fé Bahá’í conseguiu proteger sua unidade?

Nos próximos artigos vamos explorar estes temas importantes e perceber como é que os Bahá’ís, no panteão das religiões mundiais, mantiveram a sua unidade intacta.

-----------------------------
Texto original: Can Religion Stay Unified? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.